Terapia assistida por animais amplia benefícios ao tratamento de pessoas com Espectro Autista

Terapia assistida por animais amplia benefícios ao tratamento de pessoas com Espectro Autista

Estudos apontam avanços na comunicação, regulação emocional e qualidade de vida da população neurodivergente 

Criança participa de sessão de terapia assistida por animais durante atividade de equoterapia voltada ao desenvolvimento de pessoas com autismo
Equoterapia e outras modalidades de terapia assistida por animais apresentam benefícios para pessoas com Tea (Foto: Ana Beatriz Freitas)

 

Da Redação

A neurodiversidade ocupa espaço cada vez maior no debate público, com discussões sobre inclusão, combate a estigmas e ampliação de políticas públicas. Nesse cenário, cresce também a atenção da comunidade científica para uma abordagem que combina afeto e evidência clínica: a Terapia Assistida por Animais (Taa). 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas vivem dentro do Transtorno do Espectro Autista (Tea) no mundo. No Brasil, a estimativa é de aproximadamente 2 milhões de pessoas diagnosticadas.

Paralelamente ao avanço dos direitos e da conscientização sobre o transtorno, estudos vêm consolidando os benefícios da Terapia Assistida por Animais. A prática utiliza o vínculo entre humanos e animais como recurso terapêutico e educacional, o que promove ganhos físicos, cognitivos, emocionais e sociais.

A discussão já alcança o setor de saúde suplementar. Para a gestora da clínica Prima Cordis, Bianca Luísa, que também é mãe de uma criança com Tea, as evidências científicas reforçam resultados observados por muitas famílias no cotidiano.

 

“O cachorro consegue tirar as pessoas principalmente da depressão. Não só crianças ou só idosos, todas as idades, todas as patologias ligadas à saúde mental”, afirma.

 

Benefícios alcançam pacientes e familiares 

Revisões recentes publicadas em bases como Scielo, PubMed e Scopus, que analisaram pesquisas produzidas entre 2008 e 2024, apontam benefícios consistentes da Taa para crianças e adolescentes com Tea. 

Entre os principais resultados identificados estão:

  • Melhora das habilidades sociais e da comunicação: estudos com cães e cavalos registraram avanços na interação social, ampliação do vocabulário e desenvolvimento da comunicação.
  • Regulação emocional: pesquisas envolvendo cães demonstraram redução de sintomas de ansiedade, além de melhorias na autoeficácia e no autocontrole.
  • Desenvolvimento motor e cognitivo: a equoterapia apresentou resultados positivos em equilíbrio, coordenação motora e atenção.
  • Impacto familiar: os benefícios também alcançam os familiares, com relatos de melhora na dinâmica doméstica e na qualidade de vida.

 

Segundo Bianca Luísa, os cavalos abriram caminho para o reconhecimento científico da terapia com outros animais.

 

“Sempre foi muito falado o hipismo para crianças autistas, o cavalo já é uma coisa bem estabelecida, tem muita pesquisa. Agora o cachorro está ganhando esse mesmo espaço e os resultados são igualmente impressionantes”, destaca.

 

O movimento de incorporar a Taa ao ambiente clínico já é realidade em alguns serviços de saúde. No Hospital Versania, em Belo Horizonte, visitas de cães terapeutas já fazem parte da rotina assistencial. 

 

“A proposta é ter visitas dos cãezinhos nos dias em que os psiquiatras e pediatras estiverem atendendo, para trazer um olhar mais humanizado ao cuidado. Quando o cachorro chega perto, o paciente muda. É impressionante”, relata Bianca.

 

Debate e princípios para o uso da terapia

O reconhecimento científico da Taa começa a repercutir também no campo das políticas públicas. Atualmente, uma proposta em tramitação no Congresso Nacional discute a inclusão da terapia no Sistema Único de Saúde (Sus).

A medida pode ampliar o acesso de famílias de baixa renda a uma modalidade terapêutica que ainda está concentrada, em grande parte, em clínicas particulares.

Bianca Luísa conhece de perto os custos envolvidos no tratamento do autismo.

 

“O tratamento de uma pessoa com autismo é caro. Não gasto menos de R$ 3 mil por mês com a minha filha entre medicação e terapia. As famílias que não têm condição ficam sem acesso ao que há de melhor”, pondera. 

 

Outro aspecto fundamental da Terapia Assistida por Animais é o cuidado com os próprios animais envolvidos nas atividades.

Médicos-veterinários e equipes multidisciplinares acompanham os protocolos para garantir que cães, cavalos e outros animais utilizados nas sessões estejam saudáveis, adequadamente treinados e submetidos a condições que respeitem seu bem-estar físico e emocional.

Dessa forma, a relação terapêutica beneficia tanto os pacientes quanto os animais, dentro de critérios éticos e científicos cada vez mais consolidados.