- Cultura
- janeiro 23, 2026
- 7 minutos
Márcio Borges se torna imortal da Academia Mineira de Letras
Poeta, compositor e um dos fundadores do Clube da Esquina tem reconhecida sua contribuição histórica para a cultura de Minas e do Brasil

A poesia que atravessou gerações em forma de canção agora também ganha assento definitivo entre as letras mineiras. Um dos nomes mais importantes da cultura brasileira, Márcio Borges foi eleito, nesta quinta-feira, 22, novo integrante da Academia Mineira de Letras (AML). Tornou-se imortal da instituição que há mais de um século preserva e celebra a produção intelectual de Minas Gerais.
Poeta, compositor e escritor, Márcio Borges passa a ocupar a cadeira de número 29, vaga desde o falecimento de José Fernandes, em outubro de 2025. Fundada por Lindolpho Gomes e tendo como patrono Aureliano Pimentel, a cadeira já foi ocupada por figuras centrais da história política e cultural do País, como Milton Campos, Pedro Aleixo, Gustavo Capanema, Murilo Badaró e Affonso Arinos Filho.
A eleição ocorreu em sessão conduzida pelo presidente da AML, Jacyntho Lins Brandão (cadeira 25), e contou com a apuração realizada pelos acadêmicos Carlos Herculano (cadeira 37), J.D. Vital (cadeira 10) e Rogério Faria Tavares (cadeira 08). Márcio Borges concorreu com outros 11 candidatos e foi eleito com ampla maioria: 32 votos entre os 34 acadêmicos votantes.
A data da posse ainda não foi definida e deverá ocorrer nos próximos meses.
Para Jacyntho Lins Brandão, a escolha simboliza um reconhecimento histórico.
“A eleição de Márcio Borges representa o reconhecimento da Academia a tudo o que ele realizou pela cultura brasileira como poeta e músico. Sua presença também honra a AML ao aproximar nossa trajetória da história do Clube da Esquina e, consequentemente, de toda a extraordinária produção musical mineira”, afirmou.
O presidente emérito da instituição, Rogério Faria Tavares, destacou o caráter simbólico da eleição.
“A Academia presta homenagem a um grande compositor, a um letrista excepcional e a um verdadeiro historiador do Clube da Esquina. Ao mesmo tempo, reverencia um movimento musical que marcou para sempre a identidade cultural de Minas Gerais e uma geração de talentos que permanece viva na memória afetiva do País”, ressaltou.
O acadêmico Antenor Pimenta (cadeira 14) também celebrou a chegada do novo imortal. Segundo ele, Márcio Borges carrega em sua obra uma poética refinada, apresentada com simplicidade e profundidade.
“Ele nos ensinou que tudo pode virar canção e que os sonhos não envelhecem. Vem de uma família de músicos extraordinários, e sua eleição torna a Academia ainda mais admirável”, destacou, lembrando a convivência artística com Teló Borges, irmão de Márcio.
Trajetória de Márcio Borges é marcada pela música, literatura e formação cultural
Nascido em Belo Horizonte, em 31 de janeiro de 1946, Márcio Borges construiu uma carreira multifacetada que atravessa música, literatura, cinema e formação cultural. Sua formação escolar inclui passagem pelo Instituto de Educação, Ginásio Tristão de Athayde, Colégio Anchieta e Colégio Estadual, onde concluiu o curso clássico em 1967. No ano seguinte, deu início à trajetória artística que o projetaria nacional e internacionalmente.
Ao lado de Milton Nascimento, amigo e parceiro musical, Márcio construiu um dos catálogos mais respeitados da música brasileira, com mais de 200 composições gravadas por artistas como Elis Regina, Nana Caymmi, Wayne Shorter, Larry Coryell, Jon Anderson, Sérgio Mendes, além do próprio Milton.
Junto de Milton e do saudoso irmão Lô Borges, fundou o Clube da Esquina, movimento que reuniu nomes como Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Flávio Venturini, Tavinho Moura, Toninho Horta, Telo Borges e Murilo Antunes, e gerou centenas de discos ao longo de mais de cinco décadas.
Paralelamente à música, Márcio Borges também se destacou no cinema, como roteirista e cineasta amador, ao conquistar prêmios nacionais e internacionais ainda na juventude, com o curta-metragem Joãozinho e Maria (1967).
Atuou como diretor de espetáculos musicais de Milton Nascimento e Lô Borges por cerca de 20 anos, além de dirigir a ópera Fogueira do Divino (2000) e o musical Semente (2012). Entre 2019 e 2021, compôs a suíte sinfônica Suíte do Cigano, apresentada em 2023 pela Orquestra Sinfônica do Palácio das Artes, sob regência do maestro Marcelo Ramos.
Na literatura, estreou em 1996 com Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina, obra que chegou à 13ª edição e se tornou referência sobre o movimento.
Também traduziu Blackbird Singing, de Paul McCartney, publicou a novela infantojuvenil Os Sete Falcões e organizou obras como Clube da Esquina – 40 Anos e Cartas da Humanidade. Em 2022, lançou, ao lado da jornalista Cris Fuscaldo, De Tudo Se Faz Canção, livro comemorativo dos 50 anos do álbum Clube da Esquina, frequentemente apontado como o maior disco da música brasileira.
Como palestrante e formador, Márcio percorre o País com o seminário As Palavras Cantadas, ao incentivar pessoas de diferentes idades a experimentar a criação de letras musicais — iniciativa que já resultou em centenas de composições. Desde 2024, o curso também é oferecido on-line. Em sua trajetória internacional, destacou-se ainda por apresentações na ONU e em espaços culturais de Nova Iorque.
Atualmente, Márcio Borges mora em Visconde de Mauá (RJ) e trabalha na finalização de dois novos livros: o romance Oito Canoas Para o Céu – O Santo do Sertão e o volume de poemas bilíngue Discourses of The Lower Self / Discursos do Eu Inferior, com ilustrações de Kélio Rodrigues.
Com a eleição para a Academia Mineira de Letras, a palavra que sempre caminhou ao lado da música ganha agora o estatuto definitivo de permanência na história cultural de Minas Gerais.