Pesquisa investiga impactos dos ultraprocessados sobre a microbiota intestinal

Pesquisa investiga impactos dos ultraprocessados sobre a microbiota intestinal

Pesquisa publicada na revista Nutrients reúne evidências sobre o avanço do consumo de alimentos ultraprocessados e o aumento das doenças inflamatórias intestinais nas últimas décadas

alimentos ultraprocessados pesquisa Foto Magnific
Artigo publicado na revista Nutrients, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp, da Unicamp e da Aalborg University apontam relação entre os alimentos ultraprocessados e a saúde da microbiota (Foto: Magnific)

 

Da Redação

Em artigo publicado na revista Nutrients, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp, em
Botucatu, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da Aalborg University, na
Dinamarca, apontaram uma relação entre os alimentos ultraprocessados (AUPs) e a saúde da
microbiota.

O grupo identificou evidências de um aumento simultâneo, nas últimas décadas, do
consumo dos AUPs e da incidência de doenças inflamatórias intestinais (DIIs), que atualmente
afetam cerca de sete milhões de pessoas no mundo todo.

Uma das possíveis explicações para essa associação está na composição dos AUPs. De acordo com Helga Lott, nutricionista especialista em longevidade e bem-estar, um dos aspectos
importantes revelados pelos dados é o elevado consumo desses produtos.

 

“De maneira geral, dietas com grande participação de ultraprocessados tendem a apresentar
menor quantidade de fibras e maior presença de açúcares, gorduras de baixa qualidade e
determinados aditivos. Esse padrão alimentar tem sido relacionado a alterações na
composição e na diversidade da microbiota intestinal e pode interferir na integridade da
barreira intestinal e nos mecanismos relacionados à inflamação”, descreve.

 

Para a nutricionista, é importante lembrar que “estamos falando do conjunto da alimentação e que nem todo alimento industrializado ou todo aditivo produz os mesmos efeitos. O consumo elevado de alimentos ultraprocessados também tem sido associado, em estudos populacionais, ao maior risco de
obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e outras doenças crônicas”.

Cada vez mais, a ciência tem se debruçado sobre a microbiota intestinal em razão da sua
influência em várias áreas da saúde.

 

“A microbiota intestinal é formada por trilhões de microrganismos que vivem naturalmente no nosso trato gastrointestinal. Eles participam da fermentação de componentes da dieta, da produção de determinados metabólitos e vitaminas, da manutenção da barreira intestinal e da modulação do sistema imunológico e de diferentes processos metabólicos. Por isso, hoje entendemos a saúde intestinal como parte importante da saúde do organismo como um todo”, afirma Helga Lott.

 

Muito tem se falado sobre a atuação dos probióticos e prebióticos na modulação da microbiota.
Os probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, podem beneficiar a saúde. Isso não significa que todas as pessoas precisem suplementá-los. Os efeitos são específicos e dependem, entre outros fatores, da cepa utilizada, da dose e da condição clínica. Mesmo após o uso de antibióticos, por exemplo, não existe uma recomendação universal de suplementação para todas as pessoas”

Para Hega Lott, a indicação deve ser avaliada individualmente. “Já os prebióticos são substratos utilizados seletivamente por determinados microrganismos e capazes de conferir benefícios à saúde. Alguns tipos de fibras e outros compostos com efeito prebiótico estão presentes em alimentos como banana, aveia, alho, cebola, alho-poró, aspargos e leguminosas”, afirma a especialista.

A nutricionista destaca que a alimentação continua sendo uma das principais formas de favorecer um ambiente intestinal saudável. “O mais importante é construir um padrão alimentar variado,
predominantemente baseado em alimentos in natura ou minimamente processados, com boa
oferta de fibras e diversidade de alimentos de origem vegetal. Frutas, verduras, legumes, feijões e
outras leguminosas, cereais integrais, sementes e oleaginosas contribuem para oferecer
diferentes fibras e compostos bioativos que interagem com a microbiota intestinal. Somado a
isso, é fundamental adotar hábitos saudáveis, como manter a hidratação e praticar atividade
física regularmente”, declara.

Testes de microbiota intestinal apresentam limitações

Apesar do avanço das técnicas capazes de analisar os microrganismos presentes no intestino,
ainda não é possível definir uma “microbiota saudável”. Exames de microbiota disponíveis no
mercado têm limitações consideráveis e ainda não são um consenso entre especialistas em
microbiologia e imunologia por serem organismos complexos, difíceis de serem classificados
como apenas bons ou ruins.

 

“A microbiota varia muito entre os indivíduos e sofre influência da alimentação, idade,
medicamentos, ambiente e estilo de vida. Ainda não temos parâmetros clínicos universais que
permitam olhar para um resultado e simplesmente classificar aquela microbiota como saudável ou não saudável”, pondera Helga Lott.

 

Segundo a nutricionista, características como funcionamento intestinal regular, boa tolerância alimentar e ausência de sintomas persistentes, como dor ou distensão abdominal, podem estar associadas a uma boa saúde gastrointestinal, mas não funcionam como medida direta da
composição ou da diversidade da microbiota.

 

“Por outro lado, quando há sintomas persistentes, como diarreia, constipação importante, dor abdominal, distensão ou excesso de gases, é importante investigar a causa. Eles podem ter inúmeras origens e não devem ser automaticamente atribuídos a uma microbiota desequilibrada. A avaliação médica e nutricional permite investigar o quadro e definir a conduta mais adequada”, orienta.